‘A tecnologia deve estar a serviço do homem, e não o contrário’

‘A tecnologia deve estar a serviço do homem, e não o contrário’

ENTREVISTA: Eliana Siufi, psicóloga e proprietária da Pousada Estaleiro Village.


Na semana em que comemoramos o Dia do Psicólogo, trazemos para você uma entrevista com a psicóloga e proprietária da Pousada Estaleiro Village, Eliana Siufi, sobre os transtornos psíquicos que estão afetando cada vez mais a população e acabando com a qualidade de vida. Eliana é psicóloga, empresária, amante da arte, da poesia, da natureza e do ser humano. Especialista em Gestalt e Análise Transacional, atua com Psicologia Clínica de casais, adultos e adolescentes. Argentina radicada no Brasil há mais de 20 anos, faz atendimentos em português e espanhol. Tire um momento para você e confira o que ela tem para compartilhar, você merce! 

  • Pesquisa recente apontou que pelo menos 70% da população sofre com algum transtorno psíquico, entre os quais depressão, ansiedade e Síndrome de Burnout. Esse índice alarmante vem de um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional?

Eliana: Sem dúvida! Hoje estamos sofrendo as consequências de um mundo exigente e competitivo no âmbito do trabalho. Passar dia após dia respondendo o Whatsapp, acompanhando todos os canais e plataformas da tecnologia, e ainda precisar produzir resultados, cria uma química no cérebro que vicia, gerando uma sensação de poder e prazer que nos faz sentir úteis e ao mesmo tempo exaustos. Então como equilibrar nosso esgotamento e nossa produção? Aprendendo a falar ‘não’, sabendo delegar e se comunicar com a ‘comunicação não violenta’, colocando um ‘timer’, sentando para fazer as refeições sem celular para enxergar os alimentos que estão entrando em nosso corpo, a nossa ‘maquina real’, e assim nos mantermos presentes aqui e agora. Estas seriam algumas das tarefas para desenvolver um ser humano mais equilibrado e saudável.

  • Há crianças inseridas nesse contexto. Como as redes sociais estão afetando a saúde mental dos pequenos? Que outros elementos da modernidade podem estar contribuindo com este panorama?

Eliana: Tempos de inovação e tecnologia são uma realidade que não podemos negar, mas, sim, podemos administrar, e isso ficou muito desconfortável: administrar o tempo e as demandas. Crianças estão sendo afetadas pela ‘era do botão’. Tudo é agora, imediato, ‘quero isto já!’. Todo esse processo cria uma dependência de ser o centro das atenções e, de alguma forma, a tecnologia atende a essa necessidade. Contudo, cria ansiedade e não deixa espaço para frustração. Ser atendida imediatamente quando demanda não deixa espaço para sentir a falta, e a falta é necessária para que aconteça a criação da solução à sua própria frustração. O ser humano precisa de processos para incorporar experiências e se sentir reconhecido e, obviamente, uma máquina pode dar mais pontos e medalhas, mas não pode dar o abraço e a química necessária para ter saúde mental e sobretudo saúde afetiva.

A modernidade nos trouxe dispositivos nos quais você aperta um botão e tem a sensação de que um sonho do futuro aconteceu. Ser moderno, viver moderno, comer moderno, vestir-se moderno são provocações das economias globais para alcançar objetivos que parecem sonhos impossíveis. Lamentavelmente, uma criança que não tem dialogo e afeto dos pais, ou tem conceitos criados pelo mundo exterior sem o filtro da própria família, futuramente terá que enfrentar grandes questões de identidade e poder para resolver humanamente suas questões, e não mecanicamente. A tecnologia veio para ficar, mas temos que saber que ela deve estar a serviço do homem, e não o contrário.        

  • Como reverter este quadro em uma sociedade cada vez mais conectada e competitiva?

Eliana: Voltar ao diálogo, saber escutar parece uma utopia. Vejo muito na clínica e também nas organizações que têm erros importantes de interpretação da mensagem, de como o significado chega ao receptor. Emitir de forma correta e assertiva a mensagem nos dá 90% de possibilidade de sermos bem interpretados, e isso passa por saber como modular a voz e fazer a pergunta para ter uma melhor conexão. Cursos de oratória teriam que ser obrigatórios nas escolas. Para lidar com a sociedade competitiva é preciso trabalhar a autoconfiança para saber lidar com as sombras e com os brilhos, e isso tem a ver com autoconhecimento. Todo mundo fala sobre isso, mas a pergunta é: Da teoria à prática, a sociedade está realmente disposta a fazer isso?

  • Como o contato com a natureza pode contribuir para minimizar estes males ou até reverter este quadro?

Eliana: A humanidade se originou em um mundo onde existem elementos da natureza: terra, água, ar e fogo. Todas as nossas percepções e experiências passam pelos cinco sentidos. Acredito que voltar a sentir os aromas da mata, do mar, das flores…estar com os pés na terra literalmente falando, ouvir um pássaro cantar, contemplar uma noite de estrelas e lua, enxergar o micromundo e macro da Mãe Terra nos conecta ao nosso verdadeiro ser, à nossa verdadeira essência. E mais: buscar alimentar-se com nutrientes saudáveis, caminhar a seu próprio ritmo, regular os batimentos cardíacos, dormir ao som do mar nos deixa leves, criando defesas para seguir em frente e minimizar os efeitos do estresse.

  • Dê algumas dicas práticas de ações que podem ajudar quem sofre destas enfermidades.

Eliana: Para toda doença ou transtorno mental o melhor é descartar todas as possibilidades de outras doenças fisiológicas através de exames de sangue ou exames específicos que um médico indicará e, depois do diagnóstico, começar a fazer terapia e procurar técnicas de autoconhecimento.

Algumas dicas para ansiedade: respiração e meditação; ficar por um tempo afastado de celulares e telas de trabalho; alimentação com pouco açúcar; procurar colocar foco e se concentrar em algo simples como caminhar ou tomar banho, ou seja, estar presente e consciente do fazer, da ação.

Antes de dormir, é recomendável buscar meditação guiada para melhorar a qualidade do sono, ou escrever todos os pontos que queremos resolver, sejam de trabalho ou afetivos, e tomar um copo de água ou chá quente. Assim o corpo estará preparado para entrar no sono profundo e reparador.

Também é importante desafiar o corpo a fazer outras atividades, como caminhar em horários diferentes, andar de bicicleta ou ler um livro. Ou seja, sair da rotina por 30 minutos ao dia faz a diferença. Plantar um tempero na varandinha do apartamento, por exemplo, faz com que o cérebro comece um processo de adaptação a novas tarefas, novas sinapses e nova química que traz prazer. Não devemos esquecer que somos nossos próprios estimuladores para provocar novas químicas no corpo e na mente. É nossa responsabilidade, e não do outro.

  • A Pousada Estaleiro Village tem algum trabalho voltado a este público?

Eliana: Sim! A Pousada oferece atendimento de Plantão Psicológico com uma técnica que envolve as abordagens humanistas da Gestalt (trabalhando aqui e agora), bioenergética e técnicas de mindfulness (atenção plena), sempre utilizando a natureza que nos rodeia. Assim podemos acolher as pessoas para que elas tenham uma experiência que agregue saúde mental e corporal às suas vidas. Nosso objetivo é que voltem a seus lares com mais energia e equilíbrio. Também atuamos com Fisioterapia com Pilates, massagens com pedras quentes, Bambu terapia e Reflexologia.

A Pousada também oferece espaço para encontros de diferentes áreas terapêuticas integrativas, como danças circulares, yoga, meditação e outras. Fomentamos as confraternizações e eventos que agreguem qualidade de vida e busca por conexão, ou seja, que levem as pessoas ao seu próprio eixo e equilíbrio interior.

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